domingo, 7 de setembro de 2008

A Teosfera na Primavera.

A Teosfera na Primavera.


É preciso tirar as sandálias, colocar os pés sobre a areia e contemplar o horizonte que resplandesce do mar, aliás, o que nossos olhos vêem não é somente o mar, mas as vozes que ecoam do mar, da natureza que é sagrada e fala com o som divino de Deus. Não nos aquecemos somente com as luzes sol, mas com a irradiação que é espalhada do sol e se transforma em luz e assim produz vida, dádiva, calor e graça.


Deus se pronuncia através de sua criação e tudo que ele profere produz vida, produz nascimento. Eis a palavra que se pronuncia e emerge do mais profundo de nossos corações, pois, estamos no coração da divindade, em outras palavras, habitamos em seu peito. O absoluto sonha conosco e faz deste sonho uma canção, um poema, uma criação e é nesta inspiração de sua infinita amorosidade por nós que ele criou os planetas, as galáxias, as montanhas, as colinas e todos os elementos e seres que aqui vivem e povoam.


Derrama sobre a Terra sua benção de amor, tal como uma avalanche que carrega a todos e produz alegria, paz, divindade e neste paraíso que ele transforma a Terra Ele vem, nos visita, nos leva com ele e depois devolve para nossa casa que é dele. É um convite dos anjos que em coro anunciam sua presença, esta que só é captada com total reverência, respeito, silêncio e uma mística da amada que recebe seu amado e se deleita com sua presença pedindo que jamais se ausente, que não se vá.


É preciso nos habituarmos com sua presença, nos acostumarmos com sua presença mesmo em nossas ausências pelo dia-a-dia corriqueiro, pelas nossas canseiras, pela nossa velhiçe que a cada instante pousa em nós pedindo que não nos prendamos a face, ao corpo e sim ao espírito infantil que esta em nós, na criança que pegamos no colo e reconhecemos espantados que é Jesus. O pequeno galileu que nasce numa manjedoura e cercado de animais se faz simples para que ajoelhemo-nos diante dele e o abracemos reconhecendo seu amor.


Talvez, neste mês de setembro seja necessário replantarmos as flores de nosso jardim, regar as plantas, recolher as pétalas caídas e seguir em frente. Lembrar das rosas que prometemos ofertar para nossos achegados, visitar mais as árvores e conversar com elas, escutar com total encantamento os pássaros cantando, pisar na grama e brincar com a terra, fazer chuva de sorrisos sobre à Casa comum e nos felicitarmos de verdade com nossa família.


Acredito que se deixarmos nos contagiar com tal simplicidade de coração vamos fazer nascer um Éden em nossas vidas, vamos resgatar o coração e desfazer as desavenças passadas, vamos escrever uma canção ou um poema de nossa história e nos maravilharmos com os olhos das crianças, com o abraço de nossos velhinhos e cantarolar com os pardais, isto é, acredito que vamos e devemos urgentemente tornar lúdica nossa existência e como os pequenos que são os prediletos do Pai nos tornaremos seus filhos e filhas que sentam em seu colo, adormecem em seu peito e louvam com ele pela vida que para Deus termina com mais vida, com ressurreição.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A “Casa comum”


Sua mensagem é simples e sem rodeios, dirigida ao coração dos fatos. Eis um exemplo: "Quando os seres humanos se desentendem, mostram que esqueceram suas semelhanças fundamentais para supervalorizar razões secundárias. Por razões secundárias um homem destrói outro homem e destrói o planeta que o abriga. As crises, a violência, as queixas sobre o declínio da moralidade que nos assolam, mostram que o enorme desenvolvimento externo — sem dúvida útil e necessário — não corresponde a um mesmo nível de desenvolvimento interno da humanidade. Esse cultivar-se internamente é que garantirá nosso direito à felicidade e até à sobrevivência. Porque, por mais mortíferas que sejam as armas produzidas pelo medo e pelo ódio, é necessária a mão de um homem para detonar o gatilho." Pensamentos do 14o Dalai Lama O Discurso do Prêmio Nobel da PazOs Direitos do Homem no Limiar do Século XXI

Vivemos em tempos de uma desenfreada busca pela felicidade, pela paz e estabilidade, esta seja no sentido profissional, existencial, afetivo e pessoal. O homem se convence cada vez mais da necessidade urgente de retornar para a “casa comum”, de vivenciar de forma mais serena, infantil e simples sua vida frente aos desafios de ser simplesmente um ser particular na universalidade de competências que somos designados a obter.

A destreza e sabedoria do homem habitam no palpitar triunfante de seu coração, no suspirar eufórico de um sorriso, na leveza temperante de um abraço e na grandiosa responsabilidade de se assumir como um cidadão fraterno no universo, nas galáxias, de todo o cosmo, isto é, do mundo e no mundo. Talvez, o grito de urgência frente ao incêndio que nos deparamos todos os dias seja um sinal de vida, seja o alarme de que precisamos de água. A água para beber, para se banhar, para brincar e se refrescar do calor que sentimos pela corrida desenfreada que fazemos no percurso de nossa existência.

É tempo de parar, meditar, rezar e colocar nossa dimensão espiritual em acordo com a existencial. Reaprender a respirar, respirar as rosas, as árvores, os pássaros e dialogar com todo o universo, pois, tudo que vive e povoa conosco é luz, é manifesto do rastro da presença do Criador. Então vamos sentar na terra, brincar com as crianças, conversar com os idosos e nos inebriar das energias cósmicas que possui um ser humano.

Acredito que nossa casa comum possui o telefone com o prefixo EU, o DDD Deus e o número Felicidade. O nosso endereço é a Vida, pois, seja aonde quer que ela aconteça faz história. Somos marcos históricos, peregrino e caminhantes frente a novidade do caminho, diante dos desafios da estrada e sempre valentes para suar mesmo que o trilhar seja tortuoso e distante.

Então vamos sorrir, comer pipoca, escrever um poema e visitar nossos pais, avós, amigos e vizinhos. Vamos festejar a dádiva de viver e “não ter a vergonha de ser feliz”, quem sabe até cantar e salmodiar com as andorinhas, nos lambuzar com o mel das abelhas mesmo que tenhamos que trabalhar como as formigas ou ficar parados como as árvores ou voar como as borboletas. O convite esta lançado e não pode ser deixado para depois.

A vida é um verso, um encanto, um enamorar das possibilidades infinitas de ser feliz, de amar e mergulhar neste profundo oceano de encontros, reencontros, surpresas e filosofias que a natureza nos oferece constantemente. Vamos conversar com Deus sabendo que ele fala na escuta de nosso coração.Que tal escutarmos o que Ele tem para falar? Escuta Israel Javé teu Deus vai falar.

domingo, 20 de julho de 2008

Jalal ud-Din ibn Mohammed al-Balkhi Rumi


RUMI, Jalal ud-Din. Poemas Místicos/ Rumi: Seleção de poemas do Divan de Shams de Trabiz. Trad. e introd. de José Jorge de Carvalho. 1ª. Ed. São Paulo: Attar Editorial, 1996.

Charles Fernando Gomes[1]

Jalal ud-Din ibn Mohammed al-Balkhi Rumi[2] (1207-1273) nasceu na pequena aldeia de Waksh (hoje no Tajiquistão), sob a jurisdição de Balkh (hoje no Afeganistão), vindo a falecer em Konya, na Turquia. Rumi (filósofo e teólogo) pertence à seleta categoria daqueles que foram capazes de penetrar simultaneamente as esferas do divino e da criação poética como São João da Cruz, Tereza de Ávila e Hildegard de Bingen. Foi contemporâneo de Francisco de Assis[3], o qual nas palavras do teólogo Clodovis Boff[4], foi semelhantemente grandioso e místico na relação amorosa que possuía com o Sagrado.

O tradutor da obra José Jorge de Carvalho, considera-o como o sendo o mais importante autor da poesia mística persa que já existiu. Uma coisa é um bom homem; um amante, outra muito distinta, de fato, o poeta fala a partir e à Deus, ou seja, como um verdadeiro amante que o conhece e se deixa desvelar. Rumi contempla a face misteriosa do Absoluto entre as linhas e entrelinhas de seus poemas místicos, o que o faz um amante insaciável, que respira, transpira, sente e alimenta-se do supremo e de sua íntima relação com o inefável.

São 79 poemas que retratam a celebração do encontro do poeta místico com seu Amado, amigo e amante sob a direção de seu mestre Shams ud-Din de Tabriz. A beleza e a força de seus poemas extravasam uma profunda experiência místico-amorosa partilhada por esses dois mestres. Entre eles há um profundo intercâmbio e comunhão de naturezas. Rumi, a personalidade serena, cultivada nas letras clássicas, havia seguido uma trajetória exatamente à imagem de seu pai[5]. Shams, um espírito livre de biografia, patrimônio ou genealogia, impulsivo, indiferente às convenções e a todo saber estabelecido, havia crescido à custa de constantes e sucessivas rupturas e desmascaramentos. Ao encontrá-lo, Rumi, o Maulana (significa mestre), esvaziou-se de vez de todo saber supérfluo e preencheu-se de avassaladora inspiração mística e poética. Quanto a Shams, aquietou-se, aceitando finalmente submeter-se a um mestre à altura de sua exigência. Ambos os mestres, assim mutuamente se tratavam. Shams foi claro ao afirmar que sua relação com Rumi estava além do modelo mestre-discípulo (cf. CARVALHO, 1996, p.20).

O encontro de Rumi com seu mestre é conhecido na tradição Sufi como o encontro de dois oceano[6]. Porém o despeito, ressentimento e ciúme gerados pelos discípulos de Rumi frente ao enamoramento espiritual do mestre com Shams causaram uma cisão levando Shams a partir e seguir seu caminho como um peregrino. Há diversas fontes que narram esta cisão de diferentes formas, mas todas se assemelham ao relatar o desespero e a angústia que sofreu Rumi por não mais encontrar seu mestre amado.

Comentaristas, estudiosos, buscadores espirituais e apaixonados por essa divina história de amor humano dizem: Rumi finalmente encontrou o Sol de Tabris dentro de si, com ele viveu até a morte (...). Shams vivia definitivamente no coração de Maulana Rumi (cf. CARVALHO, 1996, p.25). O poeta havia encontrado o segredo do Criador, o mar e pérola de uma só vez, o tu e eu, ou seja, essas duas almas iluminadas protagonizaram o encontro sublime de dois mestres da luz.

“Em busca do amado contemplei enfim meu próprio coração, e lá o vi, não era outra sua morada (...). Corramos a casa do amado (...). Jurei por tua vida jamais desviar os olhos de tua face (...). Não buscarei em mais ninguém, pois, a causa de minha dor é ver-me longe de ti (...) Viaja dentro de ti. Faltam-te pés para viajar? Viaja dentro de ti mesmo, e reflete, como a mina de rubis, os raios de Sol para fora de ti. A viagem te conduzirá a teu ser, transmutará teu pó em ouro puro (...). É o Sol de Tabriz que opera todos os milagres: Toda árvore ganha beleza quando tocada pelo Sol” (RUMI, 1996, p. 64, 70, 76, 77, 80 e 81).

O amado e o amante. Rumi e Shams são as personificações do encontro que também é desencontro entre duas grandes almas. Estar diante da face do Sagrado é encontrar-se e perder-se no mesmo instante. A entrega ao divino transmutado em amor humano revela a tamanha grandeza desse derramamento de nascentes em um mesmo rio que se torna oceano e permite o banhar de ambos nesta luz resplandecente que é digna de muita reverência e total silêncio frente aos “Imperadores da luz divina”.

“Vem. Te direi em Segredo aonde leva esta dança. Vê como as partículas do ar e os grãos de areia do deserto giram desnorteados. Cada átomo feliz ou miserável, gira apaixonado. Em torno do Sol” (RUMI, 1996, p. 170). O Sultão Walad filho dileto, seu biógrafo e sucessor foram o primeiro intérprete e exegeta da obra de Rumi e também fundador da ordem sufi Mevlevi, conhecida como a ordem dos dervixes girantes ou dançantes. Os poemas do místico persa evidenciavam sua semelhança aos planetas que giram em torno do Sol, porém ele radiosamente gira em torno de seu amado mestre espiritual Shams que emana luz solar sobre sua vida.

Os planetas, as galáxias e os astros resplandecem de luz, luz esta que provém do Astro Rei. Rumi simboliza a simetria de todo cosmo, de toda atmosfera que depende do calor para sobreviver. Sua transcendência depende tão somente desta mensagem de sabedoria que ecoa e vêm do universo e em Shams se sintetiza na mais sublime comunhão de duas vidas, duas almas que brilham sobre a aurora da revelação da luz eterna. Eles se doam mutuamente tornando-se apenas um. O UM que Rumi enxerga na expressão do Divino na face do mestre Shams.



[1] Postulante da Ordem dos Servos de Maria

[2] Nome completo do poeta místico Rumi

[3] São Francisco de Assis (1181-1226) foi um frade católico, fundador da "Ordem dos Frades Menores", mais conhecidos como Franciscanos. Foi canonizado em 1228 pela Igreja Católica.Por seu apreço à natureza, é mundialmente conhecido como o santo patrono dos animais e do meio ambiente: as Igrejas católicas costumam realizar cerimônias em honra aos animais próximas à data que o celebram, dia 4 de outubro.

[4] Padre frei Clodovis Boff osm, Doutor em Teologia e Filósofo

[5] Seu pai Baha’ ud-Din Walad,(teólogo e mestre espiritual), com quem aprendeu teologia e literatura clássica árabe

[6] O sufismo (árabe: تصوف, tasawwuf; persa:صوفی‌گری Sufi gari) é a corrente mística e contemplativa do Iislão. Os praticantes do sufismo, conhecidos como sufis ou sufistas, procuram uma relação direta com Deus através de cânticos, música e danças. O termo sufismo é utilizado para descrever um vasto grupo de correntes e práticas. As ordens sufis (Tariqas) podem estar associadas ao Iislão xiita ou uma combinação de várias correntes. O pensamento sufi nasceu no Médio Oriente no século VIII, mas encontra-se hoje por todo o mundo. Na Indonésia, atualmente a nação com maior número de muçulmanos, o Iislão foi introduzido através das ordens sufis.


domingo, 22 de junho de 2008

Sócrates e o cuidado de si...

A MOTIVAÇÃO E SUA IMPORTÂNCIA NA APRENDIZAGEM


A MOTIVAÇÃO....

É importante compreendermos que a motivação é um processo de estímulo do sujeito frente ao mundo e seus desafios. Schopenhauer apresentou o mundo como vontade e representação de nossos desejos, Freud relacionou o desejo como fator intrínseco do indivíduo, Lacan fez uma releitura do desejo freudiano e destacou a necessidade de ser reconhecido que possuímos e Michel Foucalt trabalhou as relações do sujeito e do poder frente à sociedade.

Foucalt no final de sua vida salientou que o grande problema que o ser humano possui e a maior interrogação que ele se faz é: o que fazer com o tempo que eu possuo? Podemos ousar responder, porém antes refletir, que o maior problema que vivemos no século XXI, ou até mesmo durante toda nossa existência seria o seguinte: O problema não é a desmotivação que assola o homo sapiens contemporâneo, acredito, porém, ser, o uso que fazemos ou não da motivação que temos.

Se possuímos um oceano, uma infinitude de motivações que visitam nosso coração, mente e espírito. O que podemos fazer com eles? Dar maior importância? Talvez essa resposta fique no sopro dos ventos, na melodia das canções, nas cordas de um violão, nas palavras em giz escritas no quadro, ou melhor, no mais íntimo de cada ser humano que povoa nossa casa comum, assim, que cada um escreva sua resposta.

Toda aprendizagem é associativa, é construção e significado. Para aprender a dirigir, a plantar ou a compreender a importância de modos de produção na organização social é preciso ter motivos, é preciso atender às características relevantes, recuperar o aprendido e aplicá-lo às novas situações. A aprendizagem semelhante à culinária ou preparação de bebidas, também é uma questão de química, de misturar elementos para produzir novas e felizes combinações, em vez de poções e beberagens que possam ser fatais, isto é, podemos melhorar a química de nossas combinações na aprendizagem didática.

Aprender implica mudar, e a maior parte das mudanças em nosso entendimento precisa de grande quantidade de prática. Aprender, principalmente de modo explícito ou deliberado, supõe um esforço que requer altas doses de motivação. Na aprendizagem, é preciso procurar sempre um motivo. Pozzo (cf.2002, p. 138) pergunta por qual razão o professor vai buscar novas e laboriosas técnicas para avaliar a compreensão de seus alunos se, no final das contas, os pais querem o de sempre: que seus filhos passem e não que aprendam? No entanto, perguntamos, será que esse “passar” não pressupõe compreender?

Questões como esta se apresentam explícitas no processo de aprendizagem. Nelas gastamos energia, tempo, às vezes dinheiro, e sempre uma boa parte de nossa auto-estima, por isso os motivos para aprender devem ser suficientes para superar a inércia de não aprender. Segundo a mecânica newtoniana, um objeto em repouso precisa de uma força para se pôr em movimento, da mesma forma que um objeto em movimento necessita de uma força para se deter. Em ambos os casos há uma cômoda inércia que leva a se manter no estado atual, a não mudar. É o que acontece a muitos alunos e, certamente, a professores que se deixam levar pela imutabilidade, passando, assim, despercebida a importância do ato de motivar que conduz a mudar, gerar novos motivos onde antes não existiam, o que levava à dispersão do aluno.

Motivar não é manipular prêmios e castigos. O motivo principal da aprendizagem são as conseqüências. Trata-se de conseguir algo desejado, ou de evitar algo indesejado, em troca de aprender. A motivação extrínseca, se estabelece numa situação em que o motivo para aprender esta fora do que se aprende, são suas conseqüências, não a própria atividade de aprender em si. Não há dúvida, um bom sistema de incentivo move e, às vezes, comove o aluno, mas incentivar externamente a aprendizagem tem certas limitações que fazem sua eficácia decrescer consideravelmente em certas condições (o problema esta em encontrar prêmios e castigos que funcionem).

É preciso recorrer às necessidades socialmente construídas, que funcionam como valores ou desejos cuja eficiência são mais eficazes dependendo do grau em que os alunos a interiorizam. A aprovação social (na forma de aprovado ou notável) ou a escapada de situações sociais desagradáveis ( apresentar as notas aos pais) são valores que podem afiançar determinadas aprendizagens, mas que não funcionam do mesmo modo com todos os seus alunos. Na motivação extrínseca, os resultados da aprendizagem dependem totalmente da manutenção que irá resultar dos prêmios ou castigos, isto é, dos resultados que o aluno receber por seu empenho. Diferentemente da motivação intrínseca, em que o ato de aprender é unido à satisfação pessoal de compreender. Em outras palavras quando a razão para se esforçar está no que se aprende (andar de bicicleta, falar outro idioma, compreender melhor meus filhos).

Aprender mais prazer é igual a conhecer. Compreensão esta que se baseia em uma pessoa que se dedique a aprender denominado assunto, porque sente prazer falando-o ou fazendo-o. O que move a aprendizagem é o desejo de aprender devido ao ato. Conter subjetivamente um sentido, um significado e para alcançá-la necessitasse vivê-la num contexto emocionalmente favorável. Para que o aluno crie o interesse intrínseco pelo que aprende, deve perceber uma autonomia nas metas de sua aprendizagem e nos meios para alcançá-las, além de viver a situação de uma forma afetivamente positiva, isto nos leva a compreender porque a aprendizagem se move tão minimamente na educação obrigatória.

Em todo caso, se os motivos para tentar uma aprendizagem podem ser inicialmente extrínsecos ou intrínsecos, o mais freqüente é que se produza uma combinação de ambos, daí a relevância de motivar os alunos a interiorizar o desejo de aprender, primordialmente, pelos motivos que se percebe fora de si ( no mundo). O mal não é que já não se aprenda nada, porém a falta de vontade de tentar voltar a aprender, significando um novo desejo, ou a inquietude do aluno por saber e compreender.

Nossos desejos nem sempre estão bem motivados. Se com o tempo persistimos em alguma atividade será porque além da razão inicial surgiram novos desejos. Nossas aspirações se alternam e buscam novos sentidos, sentidos estes que impulsionam ao processo de aprender e focam prioridades[1]. A motivação não depende só das metas que possuímos, mas do sucesso que esperamos se tentamos alcançá-las. É o que propõe a teoria da motivação de êxito[2], segundo a qual a motivação frente a uma tarefa é sempre um produto do valor que atribuímos a um resultado (um motivo) pela expectativa em alcançá-lo e o hábito adquirido em consegui-lo.

Essa atribuição são construções que fazemos sobre nossa intelectualidade, auto-estima e ligadas às nossas teorias implícitas. Atribuímos nossos sucessos e fracassos sobre os resultados daquilo que desejamos e projetamos. Mesmo que seja instável ou estável, um resultado nós atribuímos a ele valores para dizer se vale apena refleti-lo ou não. Exemplificamos como o aluno que sempre falha no cumprimento de suas tarefas e jamais assume a responsabilidade por esse fracasso, porém como fazer esse ato falho tornar-se motivação e superação é o nosso objetivo enquanto sociedade. Motivar para aprender, mas sendo realista para não criar ilusão. Em todo caso, a análise conjunta de expectativas e valores na motivação, sugere algumas vias pelas quais os professores podem intervir na motivação com que seus alunos se acercam da aprendizagem e se mantém nela.

Há dois caminhos fundamentais (aumentar a expectativa e o sucesso da aprendizagem), Tapia[3] detalha seis princípios para melhorar o planejamento motivacional das tarefas de aprendizagens:

  1. Encontrar sentido no que está fazendo adequando as tarefas numa autentica interação;
  2. Informar os objetos e os meios para alcançá-los, guiando e orientando o aluno;
  3. As atividades de avaliação devem proporcionar aprendizagem para ambos (professor e aluno), avaliando o sucesso da estratégia instrucional;
  4. Partir dos interesses do aluno para mudá-lo e levá-lo a observar valores e sentidos do conhecimento;
  5. O aluno deve possuir autonomia para determinar as metas e se auto-avaliar. A motivação aumenta quando se aprende partilhando com amigos;
  6. Valorizar cada progresso na aprendizagem. Não só por seus resultados finais, mas como também pelo interesse que manifesta.

Enfim, esses princípios poderiam ser resumidos numa idéia importante: a possibilidade que um professor tem de mover seus alunos para a aprendizagem depende em grande parte de como ele mesmo enfrenta sua tarefa de ensinar ( e aprender ensinando).

A motivação do educando não pode se desligar muito da que tem seus professores. O ato de ensinar deve ser prazeroso, deve conter um sentido que permita inverter os papéis na sala de aula de forma consciente. Pode-se concluir que sem motivação não há aprendizagem, porque ela é considerada como um requisito, uma condição prévia da aprendizagem. Aprendizagem mais motivação mais atenção é igual à boa educação que produz bons aprendizes e bons mestres.

REFERÊNCIAS

ALONSO TAPIA, J. Motivacion e aprendizage em el aula: cómo enseñar a pensar. Madrid: Santillna, 1991.

POZZO, Juan Ignacio. Aprendizes e mestres: a nova cultura da aprendizagem. Trad. Ernani Rosa. Artmed, Porto Alegre, 2002.



[1] Entendido como prioridades: os atos que proporcionam sentido na aprendizagem e necessariamente estão subjacentes valores motivadores.

[2] Juan Ignácio Pozo se remete, neste ponto, à obra de Atkinson e Raynor intituilada Personality, motivation and achievement. 1978, Hemisphere.

[3] Motivacion e aprendizage em el aula: cómo enseñar a pensar. Madrid: Santillna, 1991

quarta-feira, 18 de junho de 2008

A verdade e a utilidade da ciência na perspectiva do filósofo Francis Bacon.



PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ

Programa de Aprendizagem: Prática profissional I: Pesquisa em Filosofia

Orientador: Mr. Jelson de Oliveira.

PROJETO DE PESQUISA

Charles Fernando Gomes[1]

1. TEMA

A verdade e a utilidade da ciência na perspectiva do filósofo Francis Bacon.

2. DELIMITAÇÃO

Verdade e utilidade da ciência: uma relação igualitária em Francis Bacon

3. PROBLEMA

Sendo duas categorias aparentemente opostas. Como provar que verdade e utilidade sobrevivem igualitariamente na ciência segundo Francis Bacon?

4. JUSTIFICATIVA

Para Francis Bacon[2] (1561-1626), a realidade tem a ver com aquilo que realizamos no mundo. Com isso ele é muito mais moderno por seu pensamento pós-metafísico do que Descartes. O pragmatismo marca seu pensamento. O historiador Paolo Rossi (comentador) afirma: que se Bacon tivesse sido levado a sério não teríamos sido levados pela tradição platônica, aristotélica, tomista e kantiana do subjetivismo.

Seu discurso é repleto de força intelectual e científica ao afirmar o que a ciência deve ou não deve ser e fazer. Para o filósofo, todo o nosso conhecimento tem uma inserção histórica. Segundo Bacon, o poder do homem extrair da natureza elementos para sua existência é poder da ciência.

O homem como intérprete e servo da natureza, nas palavras do filósofo, se apropria de duas condições importantes no papel de curador da natureza. O comentador, Paolo Rossi[3], tenciona em sua obra Os filósofos e as máquinas, esclarecer o significado que se deve atribuir a uma expressão de Bacon, contida no parágrafo 124 do Novum Organum[4], freqüentemente interpretada com pouca exatidão: ipsissimae res sunt veritas et utilitas. Verdade e utilidade é a mesma coisa para a ciência de Bacon, isto é, o filósofo sustenta uma identidade entre teoria e prática, verdade e utilidade, ciência e potência, considerando extremamente perniciosa uma contraposição entre tais termos. Bacon não compreende a filosofia como um “estério deserto”, idéia esta que se assemelha em sua concepção ao saber tradicional desde os pré-socráticos até Telésio, mas sim a uma união entre saber e operar, teoria e prática, discurso lógico e técnicas experimentais.

O intérprete afirma que Bacon deseja dar fundamentos as bases de uma enorme utilidade. Ambiciona, uma reforma lógica e vê nisto a necessidade de conscientizar os homens acerca da identidade entre progresso na teoria e na prática, entre potenciação dos instrumentos cognoscitivos e potenciação das capacidades operativas do homem.

O autor do Novum Organum (Bacon) situara a soberania do homem no conhecimento e, afirma que o fim da ciência é servir à vida, identifica o homem como “aquilo que o homem conhece” sendo assim, reafirma a dependência do homem diante do saber científico. Os enigmas postos pelo mito da Esfinge, segundo Rossi, são interpretados por Bacon, sendo o enigma relativo à natureza e ao que se refere ao homem, é respondido por Bacon em sua frase: “só conhecendo a natureza humana será possível adquirir domínio sobre ela”.

Por fim verdade e utilidade, segundo Bacon, seriam faces da mesma moeda, isto ocasiona uma ciência precisa que não só organiza e cataloga suas experiências mais também exige a utilidade da idéia, da verdade que fundamentará o experimento proporcionando maior precisão e dispensando a hipótese[5] com suas imprecisões.

5. OBJETIVOS

5.1 OBJETIVO geral

Apresentar a garantia da absoluta operacionalidade do saber científico e da plena coincidência entre saber e operar. Em outras palavras, entre a verdade e a utilidade na concepção de Bacon.

5.2 Objetivos específicos

a) Explicitar a noção assimétrica de verdade e utilidade na síntese científica de Bacon;

b) Analisar as críticas de Bacon em relação ao sistema lógico de Aristóteles;

c) Mostrar a adequação dos termos verdade e utilidade quanto à adequação do termo utilitarismo do pensamento de Francis Bacon.

d) Apresentar o conceito de verdade e utilidade em seu inteiro sentido no projeto baconiano sobre a ciência

6. REFERENCIAL TEÓRICO.

O filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) escreveu sua obra mais conhecida Novum Organum (publicação 1620) dois anos após tornar-se lorde chanceler e barão de Verulam (1618) e dois anos antes de publicar a História Natural (1622). É importante compreendermos o contexto histórico (político, social e econômico) da Inglaterra, este que se insere o filósofo, como atuante e influente antes de aprofundarmos nesta obra que foi um marco intelectual de sua vida.

Período esta de grande ascensão inglesa nos campos político e econômico no reinado de Elizabeth I. Foi partícipe na corte real em diversos setores (econômico, social, científico, religioso, filosófico) e astuto defensor do reino nos inúmeros combates de forças contrárias ao governo da rainha. Momento histórico do absolutismo inglês em vias de consolidação, apoiado pelas atividades comerciais elevadas, que serviriam de sustentáculo econômico-social para a monarquia.

Ao escrever sua mais famosa obra, Bacon contrapõe-se ao Organum aristotélico[6] e a ciência dedutiva, pois ela sai do universal para o particular semelhante à sua lógica e questionará a dialética e suas precauções tardias que nada modificam o andamento das coisas, mais serviram para firmar os erros que descerrar da verdade. O autor afirma que “(...) se os homens tivessem empreendido os trabalhos mecânicos unicamente com as mãos, sem o arrimo e a força dos instrumentos, do mesmo modo que sem vacilação atacaram as empresas do intelecto, com quase apenas as forças nativas da mente, por certo muito pouco se teria alcançado, ainda que dispusessem para seu labor de seus extremos recursos” (BACON, 1979, p.6)

Ele defende o uso de máquinas e técnicas (precursor da tecnologia) para a dominação da natureza, o que sem esses meios seria praticamente impossível. Para Bacon somos guias e curadores do ambiente natural, defende a coligação entre reflexão e filosofia e pede que haja dois métodos: um destinado ao cultivo das ciências e outro destinado à descoberta científica, ou seja, o primeiro método ou caminho de antecipação da mente e ao segundo de interpretação da natureza. Afirma sermos verdadeiros filhos da ciência, e nos convida a penetrarmos nos recônditos domínios por trás dos vestíbulos da ciência começada pelo pleno domínio de si mesmo e do juízo dela. (BACON, 1979, p.9)

Bacon[7] almejava a garantia da absoluta operacionalidade do saber científico e da plena coincidência entre saber e operar, significando a via da verdade e da potência, que é a mesma escrita pelo filósofo em Aphorismi et consilia, que encontra as formas das coisas e do conhecimento.

Para Paolo Rossi (comentador), é estranho que os que falam em “utilitarismo” ou “tecnicismo”, baconiano tenham freqüentemente fundado suas argumentações na base das mesmas perguntas a que Bacon tentou responder. Bacon, porém configura sua resposta de duas maneiras distintas: Na Partis instaurationes secundae delineatio, Bacon afirma que quem protesta, em nome da vida contemplativa, protesta contra si mesmo, porque a pureza da contemplação e a invenção e construção das obras se fundam sobre as mesmas coisas e são fruídas em conjunto. No Cogitata et visa e no Novum Organum, a resposta é que o império do homem reside apenas na ciência e que o homem pode apenas pelo que sabe e arremata que como na religião exige-se fé com obras, da mesma forma na filosofia natural exige-se que a ciência seja demonstrada com resultados práticos.

Assim nas palavras de Bacon, o intérprete compreende as verdadeiras marcas que o filósofo estabelece postas pelo Criador sobre as criaturas, isto é, as obras devem ser consideradas mais como garantias da verdade do que por causa das comodidades da vida. Bacon sustenta com clareza a “verdade e utilidade como mesmíssima coisa”, sustentação que tanto recebeu interpretações conflitantes. Rossi cita Spedding, defensor de maior autoridade que desistiu de justificar esse emprego do termo ipssimae (da mesma coisa) por parte de Bacon.

Rossi assume a briga e justifica a tradução com o parágrafo 13 de segundo livro do Novum Organum, em que o filósofo compreende verdade e utilidade ser a mesma coisa referente ao homem e ao universo, mas diferem apenas como o aparente e o existente, o externo e interno. No parágrafo 20, o intérprete justifica pela utilização do termo ipissimus e resgata a definição de calor que é ao mesmo tempo especulativa e operativa se produzir num corpo natural um movimento dotado das características indicadas infalivelmente, gerar-se-á calor. Ambos os termos (verdade e utilidade) na filosofia baconiana apresentam-se juntas e idênticas, ou seja, a fecundidade da verdade científica depende do seu caráter de plena verdade e das duas intenções humanas gêmeas (escreve Bacon), a ciência e a potência, coincidem numa única, e a ignorância das causas gera o fracasso das obras.

Portanto, se existe uma subordinação da ciência[8] à técnica em Bacon, esta existe para manter íntegra e sem margens para conclusões fantásticas[9], ou seja, compreender uma subordinação da verdade à utilidade, do saber ao operar nas palavras conclusivas do intérprete que laboriosamente explica a filosofia deste arauto da ciência moderna e espantam possíveis e impossíveis contradições a cerca de suas reais pretensões em relação à ciência.

7. METODOLOGIA DE PESQUISA

A pesquisa é de cunho bibliográfico, tendo como foco central a obra Novum Organum, aliada com as outras obras de Bacon, como também de seus comentadores (como Paolo Rossi).

8. CRONOGRAMA

JULHO

Coleta de dados na obra do filósofo inglês Novum Organum

AGOSTO

Continuar leitura das obras e o fichamento. E iniciar a elaboração do item “a” e “b” dos objetivos específicos

SETEMBRO

Elaboração dos itens “c” e “d” dos objetivos específicos

OUTUBRO

Elaboração da introdução, dos capítulos e da conclusão do artigo

NOVEMBRO

Entrega final e Apresentação

9. REFERÊNCIAS.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad. Alfred Bosi. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

BACON, Francis. Nova Atlântida. Trad. José Aluysio Reis de Andrade. 2. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979 a.

_____. Novum Organum. Trad. José Aluysio de Andrade. 2. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979 b.

FARIA, Ernesto. Dicionário Escolar Latino-Português. 2. ed. Rio de Janeiro: MEC/DNE,1956

ROSSI, Paolo. Bacon e Galileu: os ventos, as marés, as hipóteses da astronomia. Trad. Álvaro Lorencini São Paulo: UNESP, 1992.

ROSSI, Paolo. Os filósofos e as máquinas: 1400-1700. Trad. Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

RUSSEL, BERTRAND. Obras filosóficas. 3º. V. 3ª. Ed. São Paulo: Nacional, 1968.

10. REFERÊNCIA COMPLEMENTAR

ARAÚJO, Inês Lacerda. Introdução à filosofia da ciência. 3ª. ed. UFPR, Curitiba,2003

BACHA, M.L. A indução em Bacon. In:_____. A indução de Aristóteles a Pierce. SP: Legnar Informática & Editora, 2002. Cap.2, p.35-49.

_____. The Works of Francis Bacon. R.L. ELLIS, J. SPEDDING, D.D. HEATH (ed.). Londres,1857-92

BURNS, Edward Mcnall. História da civilização ocidental. Trad. Lourival Machado; Lourdes Machado. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Globo, 1952.

LAUDAN, L. Teorias do Método Científico de Platão a Mach. Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Campinas, Série 3, v.10, n.2, p.9-140, jul-dez. 2000.

OLIVA, A. (Org.). Epistemologia: a cientificidade em questão. Campinas, SP: Papirus, 1990.

OLIVEIRA, B.J. Francis Bacon e a fundamentação da ciência como tecnologia. BH: UFMG, 2002ROSSI,Paolo. Da magia à ciência.Trad. Aurora Fornoni Bernardini.Londrina:EDVEL, 2006

ROSSI, Paolo. Francis Bacon: da Magia à Ciência.
SALMON, W.C. Lógica.Trad. Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. RJ: Zahar Editores, 2006.




[1] Licenciando em Filosofia pela PUCPR

[2] Francis Bacon (1561-1626) é conhecido como o fundador do método indutivo e pioneiro no intento de sistematização lógica do procedimento científico. Bacon foi educado em uma atmosfera de negócios do estado inglês. Era nacionalista e entrou para o parlamento aos 23 anos, como conselheiro. Em 1617, obteve o cargo do pai, lorde do grande selo. Em 1618 torna-se lorde chanceler, mas depois de dois anos no cargo, foi processado por ter aceitado suborno. Admitindo a verdade da acusação obteve como pena o afastamento da vida pública e do Estado. Depois de cinco anos de alheamento, morreu em conseqüência de um resfriado (contraído enquanto realizava um experimento sobre refrigeração, recheando de neve uma galinha).

Ele viveu numa época de intenso movimento cultural e sua atividade política concedeu-lhe condições para dominar essa efervescência. Nascido durante o reinado de Elizabeth I foi partícipe dos setores econômico, social, científico, religioso, filosófico e do combate entre as antigas e as novas forças que eram contrárias ao governo da rainha. Com a reforma religiosa de Henrique VIII (1491-1547), as terras que estavam sobre o poder da Igreja foram confiscadas pela Inglaterra, e destas surgiu uma pequena nobreza fundiária que juntamente com os elementos ligados às atividades comerciais florescentes, estas serviriam de sustentação econômico-social para o absolutismo, em vias de consolidação.

[3] ROSSI, Paolo. Os filósofos e as máquinas 1400-1700. In:_____. Verdade e utilidade da ciência em Francis Bacon. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

[4] O Novum Organum é escrito por Bacon em forma de aforismos, textos simples e assistemáticos, a obra estabelece uma nova regra debatedora às filosofias anteriores, ditadoras de uma filosofia universal, sistemática e doutrinária. Seu pensamento é inovador ao afirmar que a “(...) a natureza não se vence, se não quando se lhe obedece. E o que à contemplação apresenta-se como causa é regra na prática” (BACON, 1979, p.13). Sua célebre frase “saber é poder”, possibilita-nos compreender o que ele deseja da natureza por intermédio da ciência, que é unir e apartar os corpos (homem e natureza) sabendo que o restante a natureza realiza por si mesma.

[5] O método indutivo de Bacon possui falha por não considerar o papel da hipótese? Quando Bacon refuta o método dedutivo afirmando que as noções (das quais constam proposições) são apenas “etiquetas das coisas” e declara que se trata de extrair de modo não grosseiro tais noções das coisas particulares, deixa escapar qualquer compreensão da função exercida pelas hipóteses no saber científico. Não é por acaso que, nas hipóteses, ele só vê uma ilegítima e arbitrária antecipação da natureza. Nesta oposição de Bacon a todo procedimento de tipo dedutivo (e também na recusa de hipóteses) viu-se justamente um dos limites do método baconiano. Bacon, sem dúvida não se deu conta da existência de ciências “nas quais o trabalho de escolha e de concatenamento de proposições já conhecidas ou admitidas como verdadeiras constitui um meio muito mais seguro e eficaz de pesquisa que a experiência direta, embora diligente e auxiliada pelo uso de instrumentos, e nas quais mesmo o procedimento de tipo dedutivo é o único meio usado não só para a verificação, mas também para a descoberta de novas leis e novas relações” (ROSSI, 2002, p.206)

[6] Para o filósofo, Aristóteles havia formulado uma ciência para resolver todos os problemas de sua época, um saber obscuro, que busca reconstruir o mundo por categorias (substância, espaço, ato e potência, tempo), mas isso nada soluciona segundo Bacon. Afirmará ser contemplativa e pastoral a filosofia do renascimento, ou seja, o mundo sendo apenas contemplado e não transformado, experimentado e conhecido.

[7] Bacon tem a ciência como o “pão”, este que é destinado aos usos da vida humana, acredita que o homem perdeu a inocência e o domínio das criaturas pelo “pecado” e que estas podem ser recuperadas pela religião com a fé, pelas artes e a ciência e não com disputas e cerimônias mágicas. O filósofo respira uma ciência racional, lúcida que o leva a fazer severas críticas aos doutores escolásticos e suas disputas dialéticas despropositadas. Desprezava o silogismo aristotélico e subestimava a matemática cartesiana, desejava simplificar o mundo e banir as superstições dos ídolos (que ele enumerou) realçando-lhe o que é favorável. Seu alicerce filosófico era o pragmatismo que dava-lhe suporte para dar à humanidade domínio sobre as forças da natureza por meio de descobertas e invenções científicas.

[8] Francis Bacon assume a paternidade da ciência moderna ao gerar o Novum Organum, tem a intenção de repaginar a posição do homem e da ciência frente à natureza balizando-as em justa posição. O homem para Bacon é servo, escravo e intérprete da natureza, ou seja, um leitor nato, um desbravador que a utiliza para compreender e fazer, transformar e modificar pela observação e análise os fatos e fenômenos que ocorrem nela (natureza) em seu curso natural. É importante compreender esse processo de Bacon como um utilitarismo da natureza de forma responsável, responsabilidade esta que não lhe deixa ser um predador e usurpador, mas sim um conhecedor que a experimenta e produz um efeito benéfico sobre ela.

[9] Criticará Platão por ter uma filosofia fantasiosa e supersticiosa.