quinta-feira, 24 de junho de 2010

Escrevo porque amo-te minha eterna mae


Cantero senza fine le grazie del Signore
Cantara sem fim a graça do
Senhor

Dalla lettera alla madre di san Luigi Gonzaga “Carta para a mae” de são Luiz Gonzaga

Invoco-te, minha mae e senhora, dom do Espirito Santo e consolaçao sem fim. Quando escrevia esta carta a te, me encontrava na regiao da morte. Mas nossas almas e certamente as nossas aspiraçoes objetivavam o ceu onde todos os viventes juntos louvarao ao Deus eterno. Por minha vontade desejei ardentemente encontrar-te e, sinceramente, esperava que antes das primeiras horas de partir, poder fitar vossos olhos novamente.
A caridade consiste, como disse são Paulo, no “alegrar-se com aqueles que estao na alegria e sofrer com aqueles que sofrem”. Porque, minha mae ilustrissima, tu deve alegrar-se grandemente, porque por seu merito, Deus me apresenta a verdadeira felicidade e me liberta do temor de perde-la. Confidencio a te, ilustrissima senhora, que meditando sobre a bondade divina, oceano sem fim e sem fronteiras, a minha mente se perde, pois não alcança tamanha grandeza. Não posso compreender como o Senhor me guarda e olha minha pequena e breve fadiga e me premia com o repouso eterno do ceu e me convida para aquela felicidade sem fim, que eu encima da hora havia negligenciado e o senhor oferece- me, após muitas lagrimas derramadas ,esse tesouro que é o coroamento de um grande labuto e pranto.
O ilustrissima senhora, guarda com te a infinita bondade divina, pois, é no sofrimento que se vive nesta vida, na presença de Deus, que com a sua intercessao posso chegar ao encontro de tuas necessidades muito mais que nesta vida terrena.
A separaçao não sera longa. Nos veremos no ceu e juntos unidos ao autor de nossa salvaçao gozaremos alegres a imortalidade, gloriando-o com toda a capacidade da alma e cantando sem fim a sua graça. Ele nos tira aquilo que da primeira vez deu-nos apenas para armazená-los em um mundo mais seguro e inviolável e nos ornar com os bens que ele mesmo escolheu para nos.
Eu digo estas coisas por obediencia ao meu ardente desejo que tu, ilustrissima mae e toda a familia, considerem a minha partida como um evento de profunda alegria. E que tu continues a me assistir com a vossa materna bençao, enquanto sou em mar, nas aguas que portam todas as minhas esperanças. Prefiro escrever-te porque nada me é mais manifesto claramente do que o amor e o respeito que devo ter com a senhora, minha mãe, como seu filho.

Traduçao Charles Fernando Gomes, 24 de junho de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

De onde vem as lagrimas?

De onde vem as lagrimas?

    Se desejas saber realmente, saber quem na vida mais te amou basta se perguntar: quem foram as pessoas que mais te perdoaram na vida. Resposta dificil para alguns ou facil para outros, porem de uma imensa importancia. Importancia de saber o nome, de reconhecer o rosto daqueles que inumeras vezes foram seu colo, seu repouso e seu ombro amigo de cada dia. Dias que se tornam mais encantadores e sublimes quando ha um pouso ou repouso seguro e acolhedor para elas, para as lagrimas que inevitavelmente chegam, mais cedo ou mais tarde chegam e ocupam lugar principal, protagonizam sua existencia. Pois sao elas as geradoras de vida e  ao mesmo instante geradas pelo coraçao e logo enviadas aos olhos.
    Mas de onde vem as lagrimas? Vem do coraçao!  No evangelho de Lucas (cap 7, 36-50) quando o evangelista narra a historia da pecadora que se coloca aos pes de Jesus e lava o pes do mestre com suas lagrimas e depois os enxuga com os cabelos, podemos analisar de diversas formas e configurar varias vezes para relaborar diversos significados exegeticos para esse ato, porem a resposta para seu ato esta na frase" aquele a quem se ama pouco se perdoa pouco", pequenina frase porem que denota uma humanidade absurda que possuia Jesus. Humanidade que proporciona olhar nos olhos daquela mulher e nao lhe condenar por seus pecados passados ou pequenos atos vis, pois para isto ja havia quem o podesse fazer ou ela propria se condenasse ja que podemos observar que nesta narrativa a protagonista nao fala uma palavra mas inunda com o perfume de seu ato esta trama do perdao que gera amor. Mas Jesus olhar sua alma e lhe desnuda o coraçao, desvesti sua alma. Como se pode desnudar um coraçao? Ah! com amor, somente com muito amor se pode olhar nos olhos do outro e inaugurar sua vida, fazer-lo redescobrir sua historia e sua dignidade no cenario da vida e no coraçao de Deus. E  nisto Jesus era um vivente excepcional pois suas palavras ressuscitavam vivos de seus sepulcros existenciais.
     Porem, neste cenario ha um homem que muito ama, uma mulher que carece de amor e um grupo de homens da religiao que nao ve o interno mas somente o externo. O escandalo de um profeta que toca em prostitutas e fala com miseraveis ou caminha com indignos e este é Jesus, é o filho de Deus e  ao mesmo tempo é o Deus que eles nao querem ou melhor nao entendem. O que faz uma prostituta? Vende seu corpo por um pouco daquilo que deveria ser de direito a cada ser humana, isto é alimentaçao, dignidade e amor. E o que faz este religioso do templo? Prostitui o sagrado, vende uma via para chegar a Deus como se ele fosse o proprietario do ceu ou pior  como se fosse o proprio Deus a fazer seus juizos e escolhas de quem quer que seja com seus proprios criterios e leis hipocritas.
      Mas as lagrimas respondem as nossas duvidas? Sim, pois falam de um tripe do qual necessitamos como imperativo de vida: amor, perdao e humildade. Amor para olhar nos olhos daquele que nos nao amamos, mas julgamos e por preconceito nos distanciamos, perdao para receber o outro inteiro no coraçao e restituir seu ser e reconfigurar sua existencia é o ato que retorna para quem o pratica, pois quem  muito perdoa é porque muito ama e por fim a humildade de se colocar nos pes de quem pode nos ajudar a ser mais humanos e restiuir nosso ser . Lavar seus pes com a agua mais limpida que existe que sao as lagrimas que vem do coraçao e falam de Deus. Assim, finalizo afirmando que em todo este cenario é a vida que fala mais alto e diz ame, deseje o bem e nao importa a quem apenas faça de um jeito que voce seja Deus  lagrimas, porem amanha pode ser voce a ser consolad
na vida de alguem porque hoje  pode ser voce a secaro e ter alguem a seca-las. Cuide e desperte em voce a dimensao do cuidado.

Bibliografia:

 Biblia do Peregrino, Evangelho de Sao Lucas, cap 7 36-50
  

terça-feira, 27 de abril de 2010

Eco, palavra, grito, silencio e espera...


Talvez sejam as palavras que guardei ou os suspiros que afogei ou muitos sonhos que nao realizei. Ainda vejo como em uma imagem miraculosa meus pequeninos pés de quando era menino a caminhar por sobre as pedras e sem manobra alguma a me proteger delas devido a adaptaçào que eu ja possuia, porém agora vejo meus pés sensiveis a alguns solos. Penso nesta analogia do solo e dos pés para recriar o que ha de mais sagrado em mim e repensar de forma evangélica que o solo em muitos momentos é meu coraçào batendo dia a pos dia e insessantemente a temer e desejar algo que muitas das vezes nào posso dar. Lembrar-me que meu coraçào nào é meu e que neste solo so ha caminho para dois pés que em sà consciencia e total lucidez racional nào posso mirar e nem crer, pois é um ato intencionalmente provindo e provido de fé.

Exortar meu coraçào a entender que seu solo, este o qual constantemente e ininterruptamente é tocado pela luz radiante e esplendorosa do sol é de Deus. Nem sempre é facil ser de Deus e ter coragem de pedir as pessoas que me ajudem a ser mais Dele. Fitar nos olhos que te buscam nas ruas o Jesus que nelas esta e pousar minhas palavars em seus coraçoes de uma forma quase magica para que nao desperte sentimentos de amor demasiadou que nào poderei corresponder .Sou de Deus e isto basta! Como a purpura do orvalho a tocar delicadamente a verde relva ou a diversidade de cores das flores e plantas, semelhante ao ulvo do lobo sobre a montanha que sona similar a um grande pranto para a lua azul... Cintilante como a luz do Sol que percorre toda a esfera terrena e se deleita com a presença magnanima do arco-iris ao seu redor. As cores do tenmpo, as estaçoes do ano, os dias da semana e os meses do ano foram formas do homem organizar o que de dentro emerge para fora que é seu coraçào, sua crença no que existe de mais inonimavel, indizivel, impensavel e incalculavel na atmosfera terrena e na atmosfera celestial.

No fim da vida que sào na realidade todos os dias que circundam minha existencia quero que nào me falte indubitavelmente duas coisas essenciais, pois no fim das contas o que é precioso é o essencial: O ar, este que nada pode substitui-lo e nem desejam meus pulmoes que seja assim. A pneuma ou o soar do Espirito Santo que se trasnfigura como uma pomba branca da paz e segue céu a fora em sua jornada eterna, nesta certeza serena peço que minha alma seja ar, mas nao pela sua abstracidade mas pelo seu devir louco ou enlouquecido, entorpecido pela jarra de nectar que é a vida e quem a bebe com sabedoria nào se lastima ou se torna soberbo depois, mas sim ilumina, irradia, produz calor sobre e com e no proximo......

A alegria, esta que é uma joia que em italiano se chama goia. Sinonimo de alegria ou uma pedra preciosa, este ser é um ser humano goioso em italiano um ser contente (alegre) que descobriu a joia que ha dentro de si e com subita sagacidade e um espirito altruista deseja ardentemente anunciar e até mesmo gritar a descoberta que atingiu com sua escavaçào dentro de si. Pois, mas perigoso que viajar para as mais longinquas galacias ou submergir para as mais profundas regioes oceanicas é viver sem ar e sem alegria que sào reservatorios preciosos de vida, amor, perdào e tempo. Tempo que é de Deus!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.



Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

HOMENAGEM AOS MESTRES



HOMENAGEM AOS MESTRES

                                                                                           Curitiba/PR, 18/12/2009


            Inicio esta homenagem aos professores do curso de Filosofia da PUCPR me apropriando das palavras do discípulo de Sócrates, Xenofonte, que no final de sua obra Apologia de Sócrates escreve:


Quando reflito na sabedoria e grandeza de alma deste homem (professores), não posso deixar de acordar-lhe a memória e a esta lembrança juntar meus elogios. E se dentre os enamorados de virtude alguém houver que haja privado com homem mais prestante que Sócrates, reputo-o o mais venturoso dos mortais (XENOFONTE, p. 173).


                        A VOCÊS QUE NOS DERAM TANTOS ENSINAMENTOS E NOS ENSINARAM A VIVENCIÁ-LOS COM DIGNIDADE, NÃO BASTARIA UM OBRIGADO.
                        A VOCÊS QUE NOS ILUMINARAM OS CAMINHOS OBSCUROS DA FILOSOFIA COM AFETO E DEDICAÇÃO PARA QUE CAMINHÁSSEMOS SEM MEDO E CHEIOS DE ESPERANÇA, NÃO BASTARIA UM MUITO OBRIGADO.       
                        A VOCÊS QUE SE DOARAM INTEIROS E RENUNCIARAM A MUITOS DE SEUS SONHOS PARA QUE, PUDÉSSEMOS REALIZAR OS NOSSOS SONHOS NÃO BASTARIA UM MUITÍSSIMO OBRIGADO.
                        A VOCÊS, CAROS MESTRES POR OPÇÃO, CONSCIENTES DE SUA PROFISSÃO E QUE POR AMOR A ELA NÃO DISSERAM NÃO, NÃO BASTARIA DIZER QUE NOS FALTAM AS PALAVRAS PARA AGRADECER TUDO ISSO.
                        MAS, O QUE NOS ACONTECE AGORA? PROCURAMOS SOFREGAMENTE UMA FORMA VERBAL PARA EXPRIMIR UMA EMOÇÃO IMPAR.   EMOÇÃO ESTA QUE SIMPLES PALAVRAS TRADUZIRIAM.
                        QUANTAS VEZES NOS DESPEDIMOS NÃO MAIS QUERENDO RETORNAR À FAMILIAR CADEIRA DA SALA DE AULA. PORÉM, A VONTADE DE APRENDER FOI SOBERANA, PORQUE, SE A SIMPLES PRESENÇA DE VOCÊS ANUNCIAVA QUE CHEGARAM ATÉ ALI, É PORQUE NÓS TAMBÉM PODERÍAMOS CHEGAR.
            ESTÁVAMOS APENAS INICIANDO A LUTA POR NOSSO IDEAL E NÃO PODÍAMOS PARAR, PORQUE PRECISÁVAMOS ARQUITETAR NOSSO CASTELO DE ETAPAS VENCIDAS.
            QUANTAS VEZES VOCÊS FORAM A FORÇA, A PACIÊNCIA, O ACALENTO?
            HOJE ESTAMOS FELIZES PORQUE VENCEMOS, E VENCEMOS JUNTOS MAIS UM DESAFIO EM NOSSAS VIDAS. DESAFIOS ESTES QUE DEUS NOSSO FILÓSOFO MAIOR NOS PERMITIU PODERMOS ENFRENTÁ-LOS.
            CARÍSSIMOS MESTRES QUE FIZERAM DE SUA MISSÃO MUITO MAIS QUE PURA DEDICAÇÃO, DE NOS TRANSMITIR O MELHOR DE SI, NÃO IMPORTANDO COM AS DIFICULDADES OU ABISMOS QUE ÀS VEZES A VIDA NOS IMPÕE.  ALÉM DAS TEORIAS, CONCEITOS E TÉCNICAS, HAVEMOS DE SER ETERNAMENTE GRATOS.
            HOJE ESTAMOS NASCENDO PARA UM MUNDO NOVO, NÃO MAIS NECESSITANDO DE MÃOS PROTETORAS, MAS DE MÃOS QUE COLHAM OS BROTOS DAS SEMENTES POR VOCÊS PLANTADAS.
            SEI QUE AGORA CAMINHAREMOS POR ESTRADAS DIFERENTES, MAS CONSOLA SABER QUE AS RECORDAÇÕES NOS ABRAÇAM.  NÃO HÁ DESPEDIDAS ENTRE MESTRES, CARREGAMOS VOCÊS NO MAIS PROFUNDO DE NÓS, ISTO É, DENTRO DE NOSSOS CORAÇÕES, RETRATANDO A TUA IMAGEM, MESTRE. COMO DIZIA FERNANDO PESSOA O SONHO É VER AS FORMAS INVISÍVEIS DA DISTÂNCIA IMPRECISA, E COM SENSÍVEIS MOVIMENTOS DE ESPERANÇA E DE VONTADE, BUSCAR NA LINHA FRIA DO HORIZONTE A ÁRVORE, A PRAIA, A FLOR, A AVE, A FONTE, OS BEIJOS MERECIDOS DA VERDADE”
POR FIM, TERMINO ESTA HOMENAGEM REFLETINDO O POEMA DE BAUDELAIRE EM As flores do mal que se chama NUnca mais esqueci da cidade vizinha.  
BEM, A CIDADE VIZINHA SE REMETE A UM POEMA DE BAUDELAIRE À MARIETTE UMA CRIADA QUE CUIDOU DELE QUANDO CRIANÇA. MAS O QUE É UMA CIDADE VIZINHA? É UM TERRITÓRIO DESTERRITORIALIZADO QUE NÃO COMPORTA DISTÂNCIA, MAS SE APARTA E QUEM VISITA É VISITADA... COMO O PROFESSOR QUE VISITA O ALUNO E O ALUNO QUE VISITA O PROFESSOR PARA AMBOS SE TORNAREM UMA CIDADE SÓ.
    Nunca mais me esqueci da cidade vizinha ...... (p. 363)


MUITO OBRIGADO DA TURMA DE FILOSOFIA, FORMANDOS DE 2009.     
                  

Oração Final do Fedro


A oração final do Fedro resume emblematicamente a mensagem fundamental do manifesto programático de Platão:
Fedro [...] Mas vamos embora, porque o calor já não está tão forte.
Sócrates Não convém que façamos uma prece a esses deuses, antes de seguir o caminho?
Fedro Por que não?
Sócrates Querido Pã e outros deuses que estais neste lugar, concedei-me a beleza interior e fazei que meu exterior se harmonize com tudo o que carrego dentro de mim. Que eu possa considerar rico o sábio e possa ter uma quantidade de ouro que só o temperante conseguiria tomar para si ou levar consigo. Precisamos de outras coisas, Fedro? Creio que pedi o suficiente.
Fedro Esta oração é também a minha, pois os amigos têm tudo em comum.
Sócrates Vamos, então!


Fonte: REALE, Giovane. O Saber dos Antigos: Terapia para os Tempos Atuais. São Paulo: Loyola, 1999, p. 254.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Do corpo à psique no período da Guerra Fria.




Antonio Macedo dos Santos

Charles Fernando Gomes
Gilberto Alexandre da Luz

Gisele de Goes Fontes Noguchi




1. INTRODUÇÃO




Um espetáculo literalmente bárbaro que retrata a animalidade instintiva do homem, ou como diria Freud sua pulsão de morte é a guerra. A guerra é uma obra de arte que desfigura a realidade e protagoniza a selvageria, a barbaria e a violência em seu grau extremo protagonizada pelo homem. Aquém de nossa compreensão racional, mas não obstante de nosso cotidiano. Nesta obra de arte (que é a guerra) o cenário se compõe de elementos estratégicos e maléficos incrementados pelo resultado de corpos mutilados, violentados, ensangüentados e abandonados. O pincel neste contexto é substituído por uma arma de fogo que possa ser a mais potente possível na técnica de matar o maior número de inimigos. A tinta, a qual presta sua importância, são os oceanos de sangue derramados no solo por feridos em emboscadas e ciladas, pois, na guerra não há piedade, mas vencedores e derrotados o que não isenta os primeiros (vencedores) de obterem outra forma de derrota, que é a derrota da racionalidade e da evolução da espécie, que nesta trama retrocede seu processo evolutivo.
Toda experiência de guerra é, antes de tudo, experiência do corpo e da psique. Na guerra, são os corpos que infligem à violência, mas também a psique juntamente com os corpos que sofrem a violência. Esta face corporal e psíquica da guerra se confunde tão intimamente com o próprio fenômeno bélico que é difícil separar a história da guerra de uma antropologia histórica das experiências corporais e psíquicas induzidas pela atividade bélica.
Para nos restringirmos ao Ocidente e a seu contato com outras áreas culturais, às quais exclusivamente nos ateremos aqui, observemos em primeiro lugar que no decurso da primeira metade do século XX poucos ocidentais puderam de todo subtrair seu corpo à experiência da guerra. Por ocasião dos dois conflitos mundiais, o combate assumiu assim o sentido de uma obrigação generalizada. Sem dúvida, as guerras revolucionárias e imperiais, ao lançar o princípio do levante em massa e a seguir, em 1798, o de uma conscrição progressivamente imitada pelos Estados europeus, tinham provocado uma primeira generalização da experiência corporal do combatente. Mas, de fato a mobilização dos homens tinha sido muito incompleta (1.600.000 mobilizados na França entre 1800 e 1815). Em seguida, após uma volta às normas pelo menos parcial, os anos 1860 e as décadas seguintes foram marcados, sob o impulso do modelo prussiano, por uma nova etapa de militarização das sociedades européias. Mas, é com e a partir dos dois conflitos mundiais que se produz verdadeiramente a transposição limiar (cf. ROUZEAU, 2008, p. 365-367).




2. DO CORPO À PSIQUE




Na quarta parte do livro História do Corpo intitulada Sofrimentos e violências, especificamente no terceiro item, Rouzeau trabalha sobre o tema do corpo à psique. O autor afirma que a guerra provocava importantes desordens psíquicas nos indivíduos e que os médicos militares do começo do século XIX já sabiam, embora dessem a essas realidades (ainda mal conhecidas) outros nomes que não os de hoje, como nostalgia ou vento da bala de canhão, por exemplo. Mas foram os conflitos modernos que ao mesmo tempo aumentaram consideravelmente o número de feridos psíquicos e forçaram os serviços de saúde das forças armadas a levarem em conta o seu caso e aplicar medidas terapêuticas (cf. ROUZEAU, 2008, p. 387).
Se a guerra russo-japonesa de 1904-1905 vê surgirem os primeiros cuidados psiquiátricos de combatentes, é de novo a guerra de 1914-1918 que vai constituir a grande ruptura: do lado francês, por exemplo, as baixas psíquicas se elevam a 14% do total das indisponibilidades. A confusão do vocabulário mostra, no entanto, as das representações: os médicos franceses falam de “comoção”, seus homólogos britânicos de Shell-schock. Isto indica que tanto estes como aqueles imaginam que os distúrbios psíquicos, que devem tratar, estão ligados a desordens neurológicas provocadas pela violência das explosões. Já os médicos alemães, através da noção de Kriegsneurosen (neuroses de guerra), posta circular desde 1907 ou ainda a de Kriegshysterie (histeria de guerra), percebem mais claramente que os distúrbios mentais dos combatentes têm como origem um sofrimento de ordem psíquica, e não neurológica. Deste modo, malgrado a hesitação dos tratamentos, é no decorrer da Grande Guerra e no quadro dos exércitos aliados que se elaboraram os primeiros princípios terapêuticos visando orientar toda a psiquiatria assim chamada “da frente” até nossos dias, a qual consistia particularmente em intervir de imediato e conservar o soldado atingido na proximidade dos locais de combate, favorecendo nele a espera da cura (ROUZEAU, 2008, p. 388).
Esses princípios são descobertos pelos norte-americanos a partir de 1942-1943 na África do Norte e no Pacífico: terão de encarar a hospitalização de mais de 900.000 “baixas psíquicas”, e mesmo certos picos espetaculares no decurso de 1944, ou mesmo 1945, como em Oknawa, onde as baixas desse tipo foram multiplicadas por dez. Devem, além disso, admitir a normalidade desse tipo de distúrbios. A quase totalidade dos soldados se vê atingida por ele depois de uma exposição prolongada ao perigo, como o confirmam as experiências da Coréia e do Vietnã (200 a 240 dias de presença em zonas de operações, a se dar crédito às normas do exercito norte-americano) .
As forças de manutenção da paz, no final do século XX, devem também beneficiar-se com um atendimento psiquiátrico tanto mais intenso quanto como mais freqüente surgem os distúrbios psíquicos entre esses “combatentes” de um novo tipo que podem servir de alvo, mais não podem usar suas armas, a não ser em função de regras muito estritas para poder dispará-las. Sentem por isso a impressão de não estarem na guerra nem combatendo, mais no centro de um “massacre” do qual se sentem as vítimas preferenciais (cf.ROUZEAU, 2008, p. 388-389).
A psiquiatria militar contemporânea indica-nos que, embora menos contundentes, outros espetáculos visuais podem ocasionar graves sofrimentos psíquicos: por exemplo, os cavalos feridos ou mortos, que facilmente evocam a sorte dos homens em vista da contigüidade antropológica entre os primeiros e os segundos; as ruínas, que também remetem à corporeidade dado que o habitat é o envoltório protetor do corpo humano; as florestas destruídas pelo fogo cerrado, com a árvore se tornando por sua vez metáfora do corpo humano. O ouvido é também solicitado, por exemplo, quando se ouvem, insuportáveis, os gritos dos feridos. O ouvido fica saturado com o estrondo das explosões, cuja vibração pode atravessar o corpo a tal ponto que cria depois de certo tempo um torpor particular que em induz muitos soldados ao sono, às vezes sem querer, sob o martelar dos tiros. O tato também fica comprometido: assim, quando não se pode evitar passar por cima do corpo de camaradas mortos ou feridos – situação freqüente nas trincheiras e corredores estreitos da Grande Guerra. Ou quando são projetados sobre sua própria pele fragmentos de carne ou de ossos provenientes de camaradas feridos perto deles (cf.ROUZEAU, 2008, p. 390).
Muitos distúrbios psíquicos, ligados a essa experiências sensoriais, se inscreveram depois no longo prazo. Entre as tropas britânicas, que tomaram parte na guerra da Malvinas em 1982, foram registradas 50% de neuroses traumáticas cinco anos depois do fim dos combates. Os norte-americanos chamaram de PTSD (post traumatic stress disorders) as neuroses que surgiram depois do combate, geralmente após um período de latência de alguns meses; os franceses preferem falar de “trauma” para designar espetáculos – geralmente visuais – que “arrombaram” a psique dos combatentes. Muitas vezes um simples olhar, ou de um inimigo que quis te matar ou que se quis matar, e através do qual o sujeito “se viu morto”, em um súbito desaparecimento da “ilusão de imortalidade”. Seja como for, hoje se sabe que o custo da experiência do combate moderno não é apenas de ordem corporal. Tudo acontece como se as formas do combate no século XX houvessem ultrapassado as capacidades psíquicas de adaptação e de resistência dos soldados encarregados de executá-las (cf.ROUZEAU, 2008, p.390-391).





3. CONSIDERAÇÕES FINAIS


O papa João Paulo II na encíclica Sollicitudo rei socialiso afirma que “o desenvolvimento é o novo nome da paz” na era moderna e prossegue: Um desenvolvimento somente econômico não está em condições de libertar o homem; pelo contrário, acaba até por escravizá-lo mais. Um desenvolvimento que não abranja as dimensões culturais, transcendentes e religiosas do homem e da sociedade menos ainda contribui para a verdadeira libertação, na medida em que não reconhece a existência de tais dimensões e não orienta para elas as próprias metas e prioridades. O ser humano será totalmente livre só quando for ele mesmo, na plenitude dos seus direitos e deveres; o mesmo se deve dizer da sociedade inteira. Assim, nas palavras do pontífice, o obstáculo principal a superar para uma verdadeira libertação é o pecado, roborado pelas estruturas que ele suscita à medida que se multiplica e se expande .
Na realidade, se a questão social adquiriu uma dimensão mundial, foi porque a exigência de justiça só pode ser satisfeita neste mesmo plano. Não atender a tal exigência poderia propiciar o irromper duma tentação de resposta violenta, por parte das vítimas da injustiça, como acontece na origem de muitas guerras. As populações excluídas da repartição equitativa dos bens, destinados originariamente a todos, poderiam perguntar-se: por que não responder com a violência a quantos são os primeiros a tratar-nos com violência? E se a situação se examinar a luz da divisão do mundo em blocos ideológico já existente em 1967? Como as conseqüentes repercussões e dependências econômicas e políticas que isso acarreta o perigo.
Concluímos que as conseqüências de semelhante estado de coisas manifestam-se no agravamento de uma chaga típica e reveladora dos desequilíbrios e dos conflitos do mundo contemporâneo, como dizia João Paulo II. Os milhões de refugiados das guerras, as calamidades naturais, as perseguições e as discriminações, de todas as espécies, privaram o homem de sua própria casa, do trabalho, da família e da pátria. A tragédia destas multidões se reflete no rosto arrasado de homens, mulheres e crianças, que, num mundo dividido e que se tornou inospitaleiro, não conseguem mais encontrar um lar. Lares seqüestrados pelas atrocidades geradas pelas guerras, que não só capturam lares, mas também vidas, famílias e utopias que possui a humanidade, destituindo-a de racionalidade, perturbando sua sanidade psíquica e seqüestrando seu sentido de vida para alcançar a felicidade.





REFERÊNCIA


ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad. Alfred Bosi. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.


BURNS, Edward Mcnall. História da civilização ocidental. Trad. Lourival Machado; Lourdes Machado. 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Globo, 1952.


CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges. História do Corpo 3: As mutações do olhar. O século XX. Tradução de Ephraim Ferreira Alves, Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.